segunda-feira, 17 de novembro de 2008

POEMA QUE SÓ UM TOLO ASSINARIA

Tô perdendo a fé em mim mesmo:
eu, que minto, espero
que os outros sejam verdadeiros.

Tô que nem agulha no palheiro:
se sincero sou
quem mente são os outros.

Eu sou mil pedaços do inteiro:
sou de cada parte a que perco
e a parte que encontro é um arremedo

de alguém que sou e desconheço
porque as partes juntas eu esqueço
que se juntam no eu verdadeiro.

Sou um trapo em trajes elegantes,
sou um nobre com fome e com sede,
sou um lobo em pele de cordeiro,

sou quem chora, calando o desejo,
sou quem ri, se o desejo alcanço,
mas não sou o riso, o choro, ou o desejo.

Sou quem chega antes, e não primeiro,
o que vem depois, e não por último,
o que, por negar, vive afirmando,

e que, ao negar, confirma tudo.
Sou o réu falante, de tão mudo,
que o júri condena, antecipado,

tenha eu virtudes, ou pecados,
seja eu um santo, ou demônio,
condenado estou, sem ser votado,

à colheita errante dos pedaços
que recolho, ajunto e, aos bocados,
vou perdendo ao longo do caminho.

Tô perdendo a fé em mim mesmo.
Vou perdendo a fé em mim e em todos
com a altivez de um vagabundo.

Para, talvez sóbrio na miséria,
de verdade e mentira deserdado,
não sobrar de mim mais que o cuidado

de colher do nada o meu tudo.


Júlio Polidoro (tolo assumido)

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