segunda-feira, 8 de junho de 2015

canção inacabada

falo de uma canção inacabada.

que ecoa desde antes dos nascimentos
soa agora
e há de ressoar além da morte.

soprada da torre mais alta
fincada no firmamento
depois de todas as sombras
onde
um ser solitário
dedilha seu instrumento.

falo da voz que nos cala
sem que sequer a ouçamos.
falo da voz que nos fala
no mais profundo silêncio
sua ária

de solfejos, dissonâncias
e desenhos de escala
em notações de beleza
sobretons e harmônicos.

falo da flor que se fecha e abre
conforme a nota e o acorde
diante das flechas do tempo
e as dribla, com novo arpejo.

falo da voz do desejo
falo do amor comovido
que, transcendendo os sentidos,
pela música transporta
as frequências do espírito

nessa canção.

Júlio Polidoro

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A teus pés




Corpos sem lugar
olhares obtusos
jamais hão de enxergar
as mortes que sofri
para viver-te.

E vão se engalanar
faces sem rosto
no semblante
que não vemos
porque todos são iguais.

Morresse bilhões de vezes
e te reconheceria
entre os passantes
porque todos estariam apagados.
Tu somente, luz.
Tu somente, estrela.

E não te perderia
ainda que sumisses
no pó das mutações.
Ainda que gota fosses
entre milhares:
serias uma igual
de todas diferente.

E eu te amaria
mesmo ausente
pois és o selo último;
presença
que se eterniza
fora do tempo.

Júlio Polidoro

sábado, 26 de novembro de 2011

Como o último pó dos astros



Sob o sol de novembro cumpro teus passos.
Irei aonde fores, por meus pés.
Acordo como qualquer homem
que se levanta pela manhã e planeja seu dia.
Mas não há destino para o homem
senão cumprir tua sina.
Carregasse milênios de conhecimento
e seria tua criança, afoita e desejosa.

Tenho um par de pernas e milhões de pensamentos;
viajo sem caminhar, e às vezes caminho.
Como o último pó dos astros
levado ao teu encontro.
Seja como vá
de onde quer que parta
e aonde quer que chegue,
cada ida é ao teu encontro
cada chegada é para encontrar-te
não importa como caminhe.

Sabendo-me tua criança
apenas sigo a sombra que se projeta
antes de mim;
apenas confio... e sigo o fio da tua lembrança.

Na tua lembrança meu destino,
sem fim ou começo.
Somente me engano
quando esqueço de recordar
que, ao sol de qualquer estação,
irei aonde fores, por meus pés.

Júlio Polidoro

sábado, 29 de outubro de 2011

A (in)consciência de si

O ato em si se faz
ainda que penses
como?

Pensas sem saber
quão independente de ti.

E andas por aí
como quem tem respostas;
te comportas
como
quem sabe as perguntas,
ó caiado muro!

E te regalas
dentro desta casca,
pérola olvidada.

Incorporas
tudo que vem de fora
olhos que não janelas
mas saídas emergentes.

Enredado,és refém
do ato que te conduz
a despeito do que penses.

Regalado no engodo
estremece teu corpo
quando a alma diz, sem logro:
- implode a casca,
filho da luz,
e sê maior que o ato,
sê maior que o espaço,
sê maior que o mundo.

Sê como óleo em gota
derramado no papel:
penetra a essência das coisas
descobre teu próprio céu
implode essa casca oca
que abafa teu coração
para, anterior ao ato,
ser último e primeiro!

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Empíreo


EMPÍREO

A turva emoção te procurava
em límpidas paragens.
Quis pronunciar teu nome
ante o olhar mais belo.

Quis seguir-te, trôpego, por meus descaminhos,
e dizer-me teu, não sendo,
e dizer-te meu, quando (Eu) não era.

Pois o que queria ainda quero
e o que quero agora, se ainda quiser,
será noutro tempo o querer de agora,
mas... E tu? E tu? E tu, que viajas fora
e que estando dentro fácil não se alcança
e que alcançado longe é, embora
aquele que alcança creia, no momento,
ter-te sem te ter, ainda não te sendo,
pois se um dia for, não terá sido.

Melhor, sei que nada sou, no fundo,
e que sendo nada maior sou que o mundo,
porque nada sendo, que querer preciso?

Extingo esse eu e na extinção diviso
o que procurava refletido:
no meu coração o paraíso.

Júlio Polidoro

Tributo ao silêncio

Quanto mais tagarelo me confundo
tanto mais confundido me atrapalho,
minha língua é refém de ato falho
e eu falho falando a todo mundo

a rota do desejo mais profundo
que fulgura em meus olhos, feito atalho
e permite que os outros, sem trabalho
mais que eu me conheçam, e mais fundo.

Me abster do discurso? Sofro e calo.
Mas calado mais sofro, então eu falo,
mas falando também não me contento.

Eu queria dizer, bem, o que sinto,
quando digo, porém, eu sei que minto,
misturando razão com sentimento.

Júlio Polidoro