domingo, 25 de setembro de 2011
Busca ao senhor dos cavalos
Desde que os vislumbrastes, persegues cavalos selvagens. Estão todos ali. Estão todos aí, nos campos da tua mente. Cavalos do pensamento, que correm pelo pasto. O pasto da imaginação. O pasto da tua ação. Em prados que nunca existiram.
Desiste de domá-los. Esquece teus cavalos. Não é este o teu fim. A meta não é domá-los.
Busca ao senhor dos cavalos, perante o qual silenciam, diante do qual rodopiam e se desfazem, feito poeira na bruma... como que gotas de espuma a se desfazerem no mar. Erige ali teu altar, teu nicho de adoração. Estrela vespertina fulgindo no coração, além de toda pastagem, além da imaginação.
Você talvez se agarre a teorias. E acenda archotes que esclareçam a dinâmica da curva. Mas caminhos sinuosos serão sempre assim.
A linha que se estica também se contrai, e se estica novamente, depois de contraída. A curva são espasmos de milhões de retas.
A vida, como a curva, não concede metas. Ela própria é, e retas atropela. Vida é espasmo que não se completa.
Você talvez se pense como sentimento. E ascenda assim sozinho, em vôo místico. Mas teu vôo é teu vôo apenas, não mais que. Ninguém (se) ajustará a tua ascese.
Não há detrás da face um rosto que revele o gosto da verdade: viver é verdade disfarçada. A corda, contraída ou esticada, a corda, como reta ou como curva, a corda como corda, mais nada.
Viver é verdade disfarçada.
Afirmas tudo que te foi negado: suspenso no futuro, no passado, vegetas no presente, sem tu mesmo, vazio de sentido, atordoado, dormitas sobre a arca do tesouro, cedendo mais valia aos próprios trapos, enxergam, mas não vêem os teus olhos.
Saber é arrancar escamas da visão. Como pode ser tua verdade o que um olho crê e o outro abomina?
Além de todas as esquinas só há realidade.
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
A sarça é o ser
Nasceste com olhos invertidos.
Nascemos todos assim:
olhos mundanos para dentro,
olhos da alma para fora.
Portanto, se te disserem “cego”, cala-te.
Aquele que tem a sorte de notar tal inversão
pugilará com a própria sombra
até que a mesma se dissipe.
Não é teu destino fazer sombra
senão ser espelho do sol.
Cabe que revolvas teus olhos
até que o universo se alinhe
à visão fecunda da alma.
Se os homens soubessem
abandonavam excessivo fausto:
o que valem mil castelos
ante uma única estrela?
Se os homens soubessem
sentiriam que a sarça
é o sol ardente do espírito.
O que é a posse
senão sombra avistada por olhos inversos?
Na verdade sequer precisas destes olhos.
Revolve-os, até que caiam
e então verás as coisas como são.
Hoje senti o sol de minh’alma
em lapsos de segundos
que ainda não sei prolongar.
Graça ou conquista, não importa,
hoje senti a sarça ardente do meu coração,
a tocha inflada do amor se expandindo do meu peito
e acendendo milhares de piras e constelações!
Hoje, por frações de segundos,
minh’alma ocupou o mundo e seguiu além dele,
o universo aquietou-se no regaço do meu ser,
eu fui o universo e o universo fui eu,
até que segui além de onde
não existe nome, nem palavra.
Então eu não estava em mim, e era.
E sendo eu mesmo, seguia muito além de mim,
e do que fosse possível imaginar.
Hoje, o céu tornou-se meu tugúrio
e o sol regurgitou-se dos meu olhos bem abertos,
feito uma cascata de astros iluminando o desamparo.
Hoje, o Amado fez de meu casebre
o mais suntuoso palácio
e erigiu em meu rincão a mais alta torre,
para alinhar, aos meus olhos,
a bem-aventurada visão da Realidade.
Júlio Polidoro
Nascemos todos assim:
olhos mundanos para dentro,
olhos da alma para fora.
Portanto, se te disserem “cego”, cala-te.
Aquele que tem a sorte de notar tal inversão
pugilará com a própria sombra
até que a mesma se dissipe.
Não é teu destino fazer sombra
senão ser espelho do sol.
Cabe que revolvas teus olhos
até que o universo se alinhe
à visão fecunda da alma.
Se os homens soubessem
abandonavam excessivo fausto:
o que valem mil castelos
ante uma única estrela?
Se os homens soubessem
sentiriam que a sarça
é o sol ardente do espírito.
O que é a posse
senão sombra avistada por olhos inversos?
Na verdade sequer precisas destes olhos.
Revolve-os, até que caiam
e então verás as coisas como são.
Hoje senti o sol de minh’alma
em lapsos de segundos
que ainda não sei prolongar.
Graça ou conquista, não importa,
hoje senti a sarça ardente do meu coração,
a tocha inflada do amor se expandindo do meu peito
e acendendo milhares de piras e constelações!
Hoje, por frações de segundos,
minh’alma ocupou o mundo e seguiu além dele,
o universo aquietou-se no regaço do meu ser,
eu fui o universo e o universo fui eu,
até que segui além de onde
não existe nome, nem palavra.
Então eu não estava em mim, e era.
E sendo eu mesmo, seguia muito além de mim,
e do que fosse possível imaginar.
Hoje, o céu tornou-se meu tugúrio
e o sol regurgitou-se dos meu olhos bem abertos,
feito uma cascata de astros iluminando o desamparo.
Hoje, o Amado fez de meu casebre
o mais suntuoso palácio
e erigiu em meu rincão a mais alta torre,
para alinhar, aos meus olhos,
a bem-aventurada visão da Realidade.
Júlio Polidoro
segunda-feira, 11 de julho de 2011
sexta-feira, 8 de julho de 2011
Dois poemas
GESTAÇÃO
O profundo fundo mar absoluto
é uma concha recolhida que ausculto
uma concha de outro mar que se perdeu
uma concha do oceano que era eu
mar imerso no oceano do teu útero
oceano do infinito absoluto
no infinito do cordão umbilical
quando sol eu era, feito sal
da Terra.
MOTO-PERPÉTUO
Nívea nuvem sobre o negro coração
nunca a noite foi tão clara como então.
Nunca o ritmo do rio que retorna
com seu rito repetido se renova
posto que águas abundantes amealhem
comuns cursos que comuns nunca serão.
Passam rios diferentes pelo leito
e meu rosto diferente é o mesmo
pois diversa a imagem ao espelho
não diverge da imagem que não vejo.
Eu aspiro ao que não tenho; o que quero
está longe do que alcanço e postergo
quando alcanço algo outro é meu desejo.
O profundo fundo mar absoluto
é uma concha recolhida que ausculto
uma concha de outro mar que se perdeu
uma concha do oceano que era eu
mar imerso no oceano do teu útero
oceano do infinito absoluto
no infinito do cordão umbilical
quando sol eu era, feito sal
da Terra.
MOTO-PERPÉTUO
Nívea nuvem sobre o negro coração
nunca a noite foi tão clara como então.
Nunca o ritmo do rio que retorna
com seu rito repetido se renova
posto que águas abundantes amealhem
comuns cursos que comuns nunca serão.
Passam rios diferentes pelo leito
e meu rosto diferente é o mesmo
pois diversa a imagem ao espelho
não diverge da imagem que não vejo.
Eu aspiro ao que não tenho; o que quero
está longe do que alcanço e postergo
quando alcanço algo outro é meu desejo.
terça-feira, 5 de julho de 2011
Ecoa em mim o som da flauta de bambu...
E a lágrima que escorre pela face desce pela nuvem,
E os braços fortes do vento são os que embalam a criança,
E o verme que consome a morte é o que alimenta a vida.
Aqui um velho falece ali nasce um pequenino,
Os ombros que se curvam são aqueles que se abrem,
O sol que queima o rosto também beija a lua.
Então eu compreendo a vida quando ecoa a flauta...
Porque, dentro de mim, não há mais nada.
A flauta quando toca me separa
De tudo que não sou e aí sou tudo
E tudo a mim se mostra de maneira clara.
Assim a flauta ecoa sem passado,
A flauta ecoa assim sem ter futuro,
Além do que é agora não há nada.
Se a flauta ecoa em mim me desconheço,
Aquele que a ouve sou e é mais que eu,
Aquele que a ouve é a própria flauta,
Aquele que a ouve é a melodia,
Aquele que a ouve é sua alma.
A flauta quando ecoa é sua alma
Na alma que há em mim e em tudo à volta.
O mundo é sua alma e sua flauta.
Assim percebo a vida que não vejo
Com olhos que não tenho
E ouço a melodia sem ouvidos
Porque, dentro de mim não há mais nada.
A mesma coisa encerram ocaso e alvorada,
A música que há em mim é a mesma que te embala.
Da flauta de bambu ecoa a lágrima
Que desce pela nuvem e pela face
E quando se encontram outro sol nasce
E tudo se aquieta, nada se separa.
Eu ouço o som da flauta e agora entendo
além do que eu pense, ou compreenda,
E além do que eu sinta, ou me emocione,
O som da flauta une a quem separa
E muitas tantas são as árias,
Sim as árias
Que ecoam numa só
Eternamente,
A flauta que ecoa em nossas almas.
E a lágrima que escorre pela face desce pela nuvem,
E os braços fortes do vento são os que embalam a criança,
E o verme que consome a morte é o que alimenta a vida.
Aqui um velho falece ali nasce um pequenino,
Os ombros que se curvam são aqueles que se abrem,
O sol que queima o rosto também beija a lua.
Então eu compreendo a vida quando ecoa a flauta...
Porque, dentro de mim, não há mais nada.
A flauta quando toca me separa
De tudo que não sou e aí sou tudo
E tudo a mim se mostra de maneira clara.
Assim a flauta ecoa sem passado,
A flauta ecoa assim sem ter futuro,
Além do que é agora não há nada.
Se a flauta ecoa em mim me desconheço,
Aquele que a ouve sou e é mais que eu,
Aquele que a ouve é a própria flauta,
Aquele que a ouve é a melodia,
Aquele que a ouve é sua alma.
A flauta quando ecoa é sua alma
Na alma que há em mim e em tudo à volta.
O mundo é sua alma e sua flauta.
Assim percebo a vida que não vejo
Com olhos que não tenho
E ouço a melodia sem ouvidos
Porque, dentro de mim não há mais nada.
A mesma coisa encerram ocaso e alvorada,
A música que há em mim é a mesma que te embala.
Da flauta de bambu ecoa a lágrima
Que desce pela nuvem e pela face
E quando se encontram outro sol nasce
E tudo se aquieta, nada se separa.
Eu ouço o som da flauta e agora entendo
além do que eu pense, ou compreenda,
E além do que eu sinta, ou me emocione,
O som da flauta une a quem separa
E muitas tantas são as árias,
Sim as árias
Que ecoam numa só
Eternamente,
A flauta que ecoa em nossas almas.
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