O ato em si se faz
ainda que penses
como?
Pensas sem saber
quão independente de ti.
E andas por aí
como quem tem respostas;
te comportas
como
quem sabe as perguntas,
ó caiado muro!
E te regalas
dentro desta casca,
pérola olvidada.
Incorporas
tudo que vem de fora
olhos que não janelas
mas saídas emergentes.
Enredado,és refém
do ato que te conduz
a despeito do que penses.
Regalado no engodo
estremece teu corpo
quando a alma diz, sem logro:
- implode a casca,
filho da luz,
e sê maior que o ato,
sê maior que o espaço,
sê maior que o mundo.
Sê como óleo em gota
derramado no papel:
penetra a essência das coisas
descobre teu próprio céu
implode essa casca oca
que abafa teu coração
para, anterior ao ato,
ser último e primeiro!
sábado, 29 de outubro de 2011
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
Empíreo
EMPÍREO
A turva emoção te procurava
em límpidas paragens.
Quis pronunciar teu nome
ante o olhar mais belo.
Quis seguir-te, trôpego, por meus descaminhos,
e dizer-me teu, não sendo,
e dizer-te meu, quando (Eu) não era.
Pois o que queria ainda quero
e o que quero agora, se ainda quiser,
será noutro tempo o querer de agora,
mas... E tu? E tu? E tu, que viajas fora
e que estando dentro fácil não se alcança
e que alcançado longe é, embora
aquele que alcança creia, no momento,
ter-te sem te ter, ainda não te sendo,
pois se um dia for, não terá sido.
Melhor, sei que nada sou, no fundo,
e que sendo nada maior sou que o mundo,
porque nada sendo, que querer preciso?
Extingo esse eu e na extinção diviso
o que procurava refletido:
no meu coração o paraíso.
Júlio Polidoro
Tributo ao silêncio
Quanto mais tagarelo me confundo
tanto mais confundido me atrapalho,
minha língua é refém de ato falho
e eu falho falando a todo mundo
a rota do desejo mais profundo
que fulgura em meus olhos, feito atalho
e permite que os outros, sem trabalho
mais que eu me conheçam, e mais fundo.
Me abster do discurso? Sofro e calo.
Mas calado mais sofro, então eu falo,
mas falando também não me contento.
Eu queria dizer, bem, o que sinto,
quando digo, porém, eu sei que minto,
misturando razão com sentimento.
Júlio Polidoro
tanto mais confundido me atrapalho,
minha língua é refém de ato falho
e eu falho falando a todo mundo
a rota do desejo mais profundo
que fulgura em meus olhos, feito atalho
e permite que os outros, sem trabalho
mais que eu me conheçam, e mais fundo.
Me abster do discurso? Sofro e calo.
Mas calado mais sofro, então eu falo,
mas falando também não me contento.
Eu queria dizer, bem, o que sinto,
quando digo, porém, eu sei que minto,
misturando razão com sentimento.
Júlio Polidoro
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
Todos os sóis e estrelas cabem na nossa aspiração...
Me ensina a polir espelhos, Senhor...
...para que se extingam o eu e o tu...
...para que se extingam o eu e o tu...
domingo, 25 de setembro de 2011
Busca ao senhor dos cavalos
Desde que os vislumbrastes, persegues cavalos selvagens. Estão todos ali. Estão todos aí, nos campos da tua mente. Cavalos do pensamento, que correm pelo pasto. O pasto da imaginação. O pasto da tua ação. Em prados que nunca existiram.
Desiste de domá-los. Esquece teus cavalos. Não é este o teu fim. A meta não é domá-los.
Busca ao senhor dos cavalos, perante o qual silenciam, diante do qual rodopiam e se desfazem, feito poeira na bruma... como que gotas de espuma a se desfazerem no mar. Erige ali teu altar, teu nicho de adoração. Estrela vespertina fulgindo no coração, além de toda pastagem, além da imaginação.
Você talvez se agarre a teorias. E acenda archotes que esclareçam a dinâmica da curva. Mas caminhos sinuosos serão sempre assim.
A linha que se estica também se contrai, e se estica novamente, depois de contraída. A curva são espasmos de milhões de retas.
A vida, como a curva, não concede metas. Ela própria é, e retas atropela. Vida é espasmo que não se completa.
Você talvez se pense como sentimento. E ascenda assim sozinho, em vôo místico. Mas teu vôo é teu vôo apenas, não mais que. Ninguém (se) ajustará a tua ascese.
Não há detrás da face um rosto que revele o gosto da verdade: viver é verdade disfarçada. A corda, contraída ou esticada, a corda, como reta ou como curva, a corda como corda, mais nada.
Viver é verdade disfarçada.
Afirmas tudo que te foi negado: suspenso no futuro, no passado, vegetas no presente, sem tu mesmo, vazio de sentido, atordoado, dormitas sobre a arca do tesouro, cedendo mais valia aos próprios trapos, enxergam, mas não vêem os teus olhos.
Saber é arrancar escamas da visão. Como pode ser tua verdade o que um olho crê e o outro abomina?
Além de todas as esquinas só há realidade.
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